Uma mudança coletiva. Esse é o convite que Luciane Petrangelo faz para estimular o avanço feminino no mercado de cessão de créditos, que ainda carrega números majoritariamente masculinos.
Em um bate-papo com o Portal Cessão de Créditos, a Head de Recuperação de Crédito conta um pouco sobre a sua trajetória que a levou a ser referência no setor bancário como pioneira na cessão de créditos não performados e na experiência do cliente (CX).
Petrangelo traz também análises e insights sobre o segmento que, assim como a participação feminina, enfrenta desafios pela frente. Por fim, como entusiasta da Inteligência Artificial, fala um pouco sobre o seu potencial para transformar a recuperação de crédito e a experiência do cliente com soluções inovadoras e disruptivas.
Confira abaixo!
Minha entrada nesse mercado foi, no mínimo, inusitada. Sempre tive perfil multiskill, com forte viés resolutivo e comercial. Um dia, fui chamada para uma reunião na sala da VP de Riscos do Santander — um ambiente completamente diferente dos demais andares, o que já despertou minha curiosidade.
Durante a conversa, o VP falava sobre estratégias de cessão de créditos, tema comum para mim como Consultora de Recuperação do Atacado. Mas, de repente, começaram a falar em venda de carteiras. E então meu diretor solta: “A Luciane será responsável por esse processo na minha equipe.”
Pensei: “Carteira? Eu? Vender?”. Isso foi em 2009. A partir dali, construímos esse produto do zero dentro do Banco e, no mesmo ano, nos tornamos referência de mercado — com uma estrutura de pós-venda sólida e muita credibilidade. O resto virou história.
O mercado de cessão segue aquecido, impulsionado pela necessidade constante de oxigenar carteiras e liberar capital regulatório. Os players estão mais exigentes e maduros, com foco em carteiras mais qualificadas, uso de precificação sofisticada e otimização de processos para redução de custos.
Para 2025, a expectativa é de aumento expressivo no volume de cessões. Isso se deve à combinação de fatores como juros e inadimplência ainda elevados, expansão da cessão em novos segmentos como varejo, telecom, agronegócio e PJ, além da exigência regulatória e do incentivo fiscal — que tornam a estratégia ainda mais atrativa para as instituições financeiras e mercado em geral.
A inteligência artificial está revolucionando o setor, embora, na prática, ainda estejamos na fase em que muito se fala e pouco se aplica. Mas é um caminho sem volta. Quando bem implementada, a IA potencializa a precificação preditiva, possibilita uma cobrança hiperpersonalizada e eleva a eficiência no envio da melhor oferta, com linguagem adequada e análise de sentimentos.
Isso reduz atritos, melhora a conversão e proporciona uma jornada mais fluida para o cliente. Quem conseguir aplicar com velocidade e consistência — seja o cedente ou, com sorte, o cessionário — certamente colherá resultados muito acima da média.
A inadimplência elevada e o alto custo do crédito tornam a concessão cada vez mais seletiva. O acesso ao crédito continua restrito, especialmente para a população de baixa renda, com orçamento já comprometido.
Outro ponto crítico é o projeto de lei que tenta limitar a cobrança de dívidas com mais de cinco anos. Eu particularmente não acredito que siga em frente. Isso representa uma ameaça direta ao mercado de NPL (non performing loans), desvalorizando carteiras antigas e exigindo estratégias de recuperação cada vez mais rápidas.
Se esse projeto avançar, o impacto será bilionário — e, mais uma vez, o custo do crédito sobe para todos.
Apesar dos esforços e programas de diversidade, as mulheres ainda ocupam majoritariamente cargos operacionais.
No setor bancário, somos cerca de 35%, mas em diretoria e VP, esse número cai para 20%. Em tecnologia, a representatividade é semelhante: apenas 39% das vagas ocupadas por mulheres, e a liderança ainda é escassa.
A desigualdade salarial e a baixa presença em cargos estratégicos seguem como grandes barreiras.
Na minha trajetória, fui persistente — e, sim, fui exceção em um mercado majoritariamente masculino como o de Cessão de Créditos no sistema bancário.
Mas a mudança precisa ser coletiva. As empresas devem criar ambientes que valorizem e estimulem o avanço feminino. E nós, mulheres, precisamos assumir nosso protagonismo com confiança. Não é só sobre competência — é também sobre romper com a autocrítica e entender que não precisamos carregar todos os papéis sozinhas.
Tem muitos pratos girando. Algum sempre cai. Mas é aí que está a beleza de ser mulher: profissional, mãe, amiga, esposa… e líder.
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